Câmbio e importação: como o dólar entra na conta e como se proteger
O dólar aparece três vezes na conta da importação, em momentos diferentes. Entenda onde está o risco cambial, quanto ele pode custar e as formas de reduzi-lo.
Equipe FOB Partners3 min de leitura
Entre o dia em que você fecha um pedido na China e o dia em que a carga é nacionalizada passam de 90 a 120 dias. Nesse intervalo, o dólar pode andar 5%, 10%, em anos ruins 15%. Para uma importação de R$ 150.000, isso é a diferença entre uma margem confortável e uma margem apertada — ou nenhuma.
Câmbio não é um detalhe da importação. É uma variável do negócio.
Onde o dólar aparece
1. No pagamento à fábrica. Os 30% de sinal e os 70% de saldo são remetidos em moeda estrangeira. Cada remessa é convertida pela taxa do dia do fechamento do câmbio, mais o spread do banco ou da corretora (de 0,5% a 2%, dependendo do volume e de quem você usa) e o IOF de 0,38%.
2. No frete e nas taxas internacionais. Também cotados em dólar, convertidos quando são pagos.
3. Nos impostos. A base de cálculo dos impostos de importação é o valor da carga convertido pela taxa de câmbio do dia do registro da DI. Se o dólar subiu entre o pedido e o desembaraço, os impostos sobem junto — mesmo que você já tenha pago a fábrica com o dólar antigo.
Quanto isso pode custar
Pedido de US$ 20.000 em mercadoria, dólar a R$ 5,20 no sinal. Até o saldo (40 dias depois), o dólar foi a R$ 5,55. Até o desembaraço (mais 50 dias), R$ 5,70.
- Sinal: US$ 6.000 × 5,20 = R$ 31.200
- Saldo: US$ 14.000 × 5,55 = R$ 77.700 (em vez de R$ 72.800 à taxa inicial)
- Impostos sobre base em R$ 5,70 em vez de R$ 5,20: cerca de 9,6% a mais, uns R$ 7.000 em um pacote típico
Total: perto de R$ 12.000 a mais do que a conta feita no dia do pedido, sobre uma importação de ~R$ 230.000 nacionalizados. Cinco por cento de surpresa.
Formas de se proteger
Travar o câmbio (hedge). Um contrato de câmbio a termo (NDF) fixa hoje a taxa das remessas futuras. Bancos e corretoras oferecem para valores a partir de alguns milhares de dólares; o custo é a diferença entre a taxa à vista e a futura (que reflete juros) mais o spread — normalmente de 1% a 2% ao trimestre. Elimina a incerteza nos pagamentos à fábrica, mas não nos impostos.
Fechar câmbio antecipado. Comprar os dólares na data do pedido e deixar em conta no banco até a data de pagamento (ACC/pagamento antecipado). Simples, mas exige o caixa inteiro no início.
Negociar o pagamento em prazos. Fábricas com relacionamento podem aceitar parte do saldo depois do embarque, encurtando a janela de exposição.
Precificar com margem de segurança. Para quem não faz hedge, calcular a viabilidade com dólar 8% a 10% acima do atual. Se o produto ainda compensa, o risco cambial não vai quebrar a operação.
Repassar. Quem tem flexibilidade de preço de venda pode ajustar. Quem vende em marketplace competitivo, quase nunca.
O lado bom
O dólar também cai. Importadores que trabalham de forma recorrente — um container a cada dois ou três meses — passam por altas e baixas e ficam com um custo médio. O risco cambial é cruel com a importação isolada e muito mais suave com a importação como rotina. Mais um motivo para pensar em importar como processo, não como evento.
Na análise de viabilidade que fazemos para cada cliente, a sensibilidade ao câmbio aparece explicitamente: "a R$ 5,20 a margem é X; a R$ 5,70 é Y". Decidir com essa informação é bem diferente de descobrir no desembaraço.
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